domingo, 9 de maio de 2010

Amadurescência



Existe um limiar, um estado de espírito, uma parte da evolução, que é praticamente ignorada, e percebo agora, que isso é o que acarreta terríveis situações desnecessárias.

É ponto que todos crescemos, por mais mostras do contrário que muitos dêem disso, crescemos. A infância é aquele período com gosto de leite e em tons pastéis, onde você não percebia que não tinha do que se lembrar, a infância á uma mistura de sonho, presságio e reconhecimento na nossa vida adulta, muito menos divertida e sincera, e fatalmente mais longa.

A pré-adolescência, é em minha opinião uma fase ruim, onde não desejamos ser aquilo que somos, tentando ser aquilo que ainda não podemos ser. É uma espera, um momento artificial e que normalmente é pouco lembrado, por trazer experiências de trauma e humilhação (como a primeira vez que você resolve se maquiar, aos 11 anos), e completa ignorância do mundo ao redor. Mas ainda há inocência em você.

Enfim, a adolescência! A explosão. Você não tem absolutamente nada para fazer, a não ser estudar, mas já é “adulto” o suficiente para fazer o que quiser, e se acharem que não, você grita, você briga, você, hora ou outra, faz. É a primeira vez que você vai ver pessoas de verdade, de carne e osso, que falam e riem. Você se tornará uma dessas pessoas. Vai fazer amigos, participar de um grupo, formar laços de amor eterno coletivo, egoistamente. Vai dizer pela primeira vez que ama alguém, vai fazer amor com alguém pela primeira vez. Vai se desiludir e querer morrer na primeira traição. Vai entender, algum tempo depois, o que é traição de verdade. Vai querer saber sobre poliíticaguerrasexodrogasbebidareligião de uma vez só, e vai ficar extremamente confuso com todas as informações que conseguir. Vai ser arrogante, e olha só... vai perder o medo do escuro (ou não). Você vai, literalmente, viver pela primeira vez, na condição de um adulto. Depois talvez, você renegue dessa fase, muitos mudam depois de adolescentes. Mas não adianta, em meio a toda a hipocrisia da negação e superação, haverá a inveja, pois você sabe, que os dias nunca foram tão belos, por pior que eles possam ter parecido na época.

Ai você cresce de novo. Tudo isso que já disse, é apenas para falar desse momento. A escola acaba, você tem que passar no vestibular, ou você tem um filho, ou você apenas precisa trabalhar. Nessa hora, você não sente “o seu corpo mudando” para saber que está crescendo mais uma vez, nem sente uma revolta contra tudo e todos, pelo contrário, o único sintoma, é uma aquietação de espírito e alienação mental. Você se acha grande e adulto, e tudo aquilo que trouxe daquela adolescência turbulenta, torna-se estranho, pesado, infantil, para não falar absolutamente desnecessário. Ai você se afasta, rindo ironicamente, se sentindo o melhor. E passa um tempo, e você está só. Então você retorna, tenta reviver aqueles dias, apenas para não ficar sozinho. Mas a semente cresceu, e você é grande, e melhor que os outros. Procura outros amigos, outros amores e encontra, um tempo depois, depois de muito ficar sozinha. E feliz e contente faz as mesmas coisas que fazia antes. Pagando o triplo por uma cerveja, o dobro por um motel, seu salário em uma viagem cafona à Águas de Lindóia, o seu preço está cada vez mais baixo. Mas você não percebe isso, não agora, não enquanto não for tarde demais. Na faculdade, sua capacidade de ser intelectualizado e arrogante é tão sublime, que você se esquece de ter dúvidas e questionar, e fica em stand by mental. Você gradativamente para. Não consegue mais somar nada à sua vida, e para viver, se subtrai cada vez mais. Mas você realmente não percebe, e até sorri às vezes, só não sabe se é com sinceridade. Depois disso fica fácil, 99% das pessoas se casam e tem filhos, e fim. Algumas são mais abastadas que as outras, mas não é esse o ponto em questão; o 3% viram revolucionários do Movimento sem Terra, e se perdem em manifestações e verdades absolutas; 0,3% se recusam a crescer e podem ser encontrados por ai, barbados em meio a crianças e 0,4% se recusam a se vender e se matam por ai.

É isso. Você se tornou o inválido que reclama do horário político que cortou o Fantástico. Tornou-se o covarde que odeio o emprego e não tem força de procurar outro. Tornou-se o cardíaco que aos 35 anos vai ter ataque por nervosismo e cigarro em abundância. Tornou-se o seu próprio e inútil fim.

Congratulações! Você cresceu.

Um comentário:

Renato Belinelli disse...

É uma descrição da realidade de cada ser.