quarta-feira, 10 de junho de 2009

E no segundo ato, está sentada de frente para o palco, observando as
cortinas vermelhas.
Ansiosa,a atriz aguarda o início da sua peça.
Os três sinais soam, e em meio as luzes apagadas, apenas no palco, há um círculo de luz, esperando para iluminar a grande estrela.
E nada acontece.
Aqui e ali ouvem-se tosses que disfarçam o constrangimento da espera. O tempo se arrasta, e pequenos resmungos podem ser ouvidos.
O homem forte, colérico, grita suas reclamações. E a mulher lacrimosa, pensa no desperdício de seu único dia de folga mensal. Lentamente, o barulho cresce, se espalha e ecoa por todo o teatro.
Os expectadores exigem, agora aos urros, uma peça correspondente ao preço que pagaram. Se- nhoras de conjuntos em tons pastéis, reclamam do país, e de sua evidente culpa pelo fracasso da peça. Homens convencidos pelas vozes estridentes das esposas, foram procurar a administração do teatro, e é de um senhor que se escuta a primeira vaia.
Em coro, a platéia vaia ensandecida, e os mais revoltados, jogam lixo no palco.
A atriz, profissional, segue o roteiro. Se levanta, puxa uma cesta que estava embaixo da sua poltrona, e entrega tomates e verduras (podres) à platéia, enquanto incita as pessoas contra a peça.
Nas cortinas, agora há manchas de imundície. Do chão de madeira escorre fétido líquido repugnante. As pessoas estão raivosas. Brigam entre si. Aquele homem grita com a namorada, a culpando pela idéia do teatro, cerveja em um bar é muito mais romântico para um casal que comemora seu primeiro ano de namoro. Muitos os que se sentam na frente, discutem e agridem, os que se sentam nos fundos, pelo lixo que jogaram no palco e fatalmente caiu em cima deles.
Os homens que foram a administração voltam com a notícia. As portas do teatro estão trancadas, não há como arrombá-las.
O pânico se espalha, as mulheres gritam, a grávida começa a passar mal, os celulares não dão sinal. Estão presos...
O teatro é tomado pelas pessoas, invadem o palco, e nas coxias, em meio a destruição que causam, procuram uma saída. Alguns espertos, aproveitam a situação e roubam bolsas, carteiras e o que encontram de valor pelos camarian.
Já faz um bom tempo que estão trancados, e da fúria nasce a semente do medo, e sem que ninguém mande todos ficam juntos, na parca iluminaão do palco.O silência, gradativamente se instala, e olhos arregalados tentam enxergar através da escuridão, lenços perfumados contra os rostos tentam disfarçar a podridão de suas próprias ações.
Desse silêncio, um lamento verdadeiro surge de alguns, e outros se organizam para arquitetar uma maneira de sair dali. Vão tentar novamente arrombar as portas, e quando vão bruscamente de encontro a uma delas, ela cede, aberta...
O alívio se estampa no semblante de todos, e aos empurrões e em meio a correria, atropelam-se, lutam pelo privilégio de fugir do teatro antes que os demais.
Por fim, os velhos e as mulheres mais frágeis conseguem passar pela porta, que se fecha novamente.
As luzes se acendem, e a atriz emocionada, aplaude frenética, de seus cabelos tira uma flor que atira no palco.
Por muito tempo ela fica no mesmo lugar, chorando silenciosamente, sensibilizada pela maravilhosa apresentação que assistiu.

FIM DO SEGUNDO ATO

Um comentário:

Radaroff disse...

literalmente a vida imita o show... o show onde todos usam mascaras e tentam se convencer do contrario porem diante de uma situação inesperadas acabam revelando o que realmente são...atores involuntarios.